O tempo e o rastro

Nara Araújo


Orelha do Livro

Eliane Tejera Lisboa

 

O livro de Nara Araújo é um mosaico de experiências díspares, sobre a escrita e o tempo. Mas é sobretudo este que dá unidade ao livro, no percurso temporal, na sensação de que é possível trazer o passado ao presente, aproximá-lo, tornando-nos íntimos dele nesta viagem reflexiva sobre livros, escritas de viagens, suas ou de outros. Livro também de relatos que a autora consegue atualizar, nos fazendo viver o passado como se presente fora. Ao nos conduzir por outros tempos e espaços, a autora nos faz sentir os lugares, seus costumes, clima, vegetação e perfumes, partilhando conosco o sentimento que experimentou ao conhecê-los. Locais e personagens ganham um desenho tão preciso que é como se nós mesmos os tivéssemos visitado.

Os textos aqui reunidos acentuam as marcas do já vivido, dos percursos feitos, das imagens registradas pela memória ou pela câmera, das horas passadas e das lembranças destas horas. Livro de lembranças sem um foco único, aberto às surpresas que a própria memória oferece. Também nos faz perceber por onde estes viajantes andaram no pensar suas viagens, o que os atraía, o que os estimulava a continuar, ou a fazer da viagem ponto de reflexão.

Estudo de escritas, o livro de muitas memórias nos faz perceber a própria ficção, as escritas distintas masculina e feminina, seus pontos de confluência, suas marcas próprias. Seu texto discute o específico da literatura feminina dos séculos passado, cuja fragilidade se revela na ânsia de buscar apoio em outra voz que confirme e legitime seu discurso, frente a uma escrita masculina que “naturalmente” assume a autoridade de sua própria voz. Por seu lado, o texto de Nara nos coloca num outro parâmetro da alma feminina, com a sensualidade que tresanda de sua escrita, sinuosa e poética. Uma sinuosidade, no entanto, que não é exclusiva da escrita de mulheres, mas que se encontra nos escritos dos poetas, porque a poesia sim tem a anima como essência. E o tom poético que perpassa a escrita da autora cria em nós um sentimento de intimidade, de conversa ao pé do fogo, como se nos fossem sussurradas ao ouvido estas falas, estas lembranças, este despertar de marcas da história pessoal de cada um, como um despertar de fantasmas...

Em função deste estilo mesmo da autora, traduzir a obra de Nara Araújo constitui-se em desafiadora experiência, singular e prazerosa. Sua prosa de tons poéticos impõe o cuidado permanente para não se deixar escapar pelos dedos (ou pelas linhas) a musicalidade existente no texto original.

 

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