Peregrinações de uma pária
Flora Tristan

Tradução de Maria Nilda Pessoa e Paula Berinson*

As tradutoras

         

Traduzir Les Pérégrinations d’une Paria, de Flora Tristan, foi uma aventura trabalhosa e prazerosa, um exercício de paciência e persistência, um percurso de idas e vindas. Começamos as primeiras leituras na edição da Maspero de 1979, que suprime vários trechos da primeira edição (um quarto do original, segundo o editor) e transforma a numeração dos capítulos. A primeira edição foi publicada pela Arthur Bertrand Livraria (rua Hautefeuille, nº 13) em 1838 e contém uma Carta aos Peruanos, assinada pela autora e datada de Paris, agosto de 1836, seguida de um longo texto com uma epígrafe evangélica, extraída de São Mateus, que nos anuncia o valor da fé. Nesse texto, a autora desenvolve reflexões filosóficas sobre a condição humana, sobre os párias da sociedade: além dos escravos, outras classes de pessoas sofrem uma opressão legal: os camponeses na Rússia, os judeus em Roma, os marinheiros na Inglaterra e as mulheres em toda parte. Embora o livro algumas vezes desminta esta afirmação, eis o que Flora afirma sobre leis injustas que não protegem as mulheres: “Ce n’est donc pas sur moi personnellement que j’ai voulu attirer l’attention, mais bien sur toutes les femmes qui se trouvent dans la même position et dont le nombre augmente journellement” (“Não é pois sobre mim pessoalmente que desejei chamar a atenção mas sobre todas as mulheres que se encontram na mesma posição e cujo número aumenta diariamente”). Após esse pequeno ensaio introdutório, temos uma apresentação (avant-propos), na qual a autora explicará ao(à) leitor(a) as razões que a determinaram a empreender a longa viagem entre Bordeaux (França) e Arequipa (Peru). É um texto autobiográfico bastante elucidativo sobre vários episódios do livro.

            A edição de 1838 veio a lume em dois volumes, assim distribuídos: no tomo primeiro encontram-se ‘prólogo’, ‘Aos Peruanos’, ‘prefácio’ e 8 capítulos, numerados em algarismos romanos de I a VIII; no tomo segundo, 10 capítulos, numerados de I a X. Do ponto de vista de algumas decisões tomadas com relação à parte técnica da tradução, devemos assinalar que conservamos em espanhol os termos que assim apareciam no texto da edição francesa, o mesmo acontecendo com termos em itálico. Procuramos permanecer o mais próximo possível do espírito do texto, inclusive fazendo opções por um vocabulário mais erudito, na perspectiva de uma linguagem do século XIX, que já está atualizada no texto da edição Maspero.

Tivemos acesso ao texto da edição original de 1838 graças à intervenção de nossa colega Elizabeth Siqueira, que conseguiu o primeiro tomo na biblioteca da Universidade de Urbana, Indianápolis. A ajuda de Peggy Sharpe, professora americana muito ligada aos estudos de autoras latino-americanas e brasileiras, foi preciosa para termos acesso a esses textos. Graças a ambas, tivemos igualmente acesso à tradução em espanhol, na íntegra, da edição original de 1838 e fizemos o cotejo entre esse texto e o da Maspero, bem como entre a edição espanhola e o texto da edição original em francês. Desta, o segundo tomo só foi possível encontrar graças ao empenho de Zahidé Muzart, que teve acesso a ele através do site da Biblioteca Nacional da França. Agradecemos à Editora Mulheres o interesse pela tradução do texto de Flora Tristan.

As Peregrinações de uma Pária transformam as simples anotações de uma viajante curiosa em cenas romanescas através de diálogos bem montados e da estruturação de uma ação central — a reivindicação de uma herança — que funciona como fio condutor. Em outros capítulos, o estilo de Flora empresta dramaticidade e vivacidade à narrativa, de tal forma que temos cenas de teatro que podem ser imaginadas pelos leitores:

— Mas prima, o que se passa, pois, na rua de São Domingos?

— O que se passa! O espetáculo mais divertido que se pode ver, você verá.

Flora vai ao Peru em 1833 em busca de reconhecimento por parte de sua família paterna e na esperança de receber a parte que deveria lhe caber como herança. Segundo as leis em vigor, o casamento religioso dos pais de Flora não tinha valor legal; ela era, então, filha natural, não tendo portanto, naquela época, os mesmos direitos dos filhos legítimos.

Entretanto, ao lado dessa disputa pessoal em busca de seus direitos e das reflexões sobre sua situação, o que lemos também nos dezoito capítulos do livro são as observações acumuladas sobre a situação da mulher tanto na sociedade européia quanto, sobretudo, na sociedade hispano-americana. A viajante estabelece comparações quase sempre desfavoráveis em relação à situação da mulher nos países americanos que visita, sobretudo o Peru, onde permaneceu por dois meses.

Esperamos que esta tradução permita a leitores e leitoras o acesso à obra de Flora Tristan, iniciando o conhecimento desta autora por um relato de viagem muito vivo e agradável.

 

Maria Nilda Pessoa e Paula Berinson


 

 

Dados biográficos
de Paula Berinson


 

Paula de Lemos Berinson nasceu em Recife no dia 08 de abril de 1965, filha de pai palestino e mãe brasileiro. Cursou o primário, depois o ginásio e o científico sempre na mesma escola, o Colégio Israelita Moisés Chwartz, na cidade do Recife. Prestou vestibular em 1983 e entrou, em 1984, para a Universidade Federal de Pernambuco, onde cursou Letras. Na universidade, foi bolsista da PROPESQ    trabalhando pelo GT A MULHER NA LITERATURA, onde permaneceu mesmo depois de haver terminado a bolsa.

Participou de diversos seminários e congressos pela Universidade Federal de Pernambuco, alguns como organizadora (sobre o Centenário de Albert Camus, realizado entre 30/08 e 03/09/1993), outros como colaboradora da comissão organizadora (Seminário Rimbaud, realizado entre os dias 25 e 27 de novembro de 1991), outros como coordenadora (Seminário Raquel de Queiroz, realizado entre os dias 16 e 18 de setembro de 1991), outros simplesmente como participante. Participou de diversos concursos literários, dois dos quais premiados (3° lugar no Concurso Manuel Bandeira, 1° lugar na categoria Ensaio, prêmio Cidade do Recife). Como membro do GT, ainda apresentou uma comunicação no seminário sobre “Cem anos de imprensa feminina em Pernambuco: 1830 a 1930”. Formou-se pela Universidade Federal de Pernambuco em 1988 bacharelada em Língua Francesa. Entre 1991 e 1992, cursou Especialização em Literatura Brasileira pela mesma Universidade. Sua realização mais importante foi a tradução, para o Português, da obra “As Peregrinações de uma Pária”, publicada pela Editora Mulheres, em co-editoria com a EDUNISC, de Florianópolis, no ano de 2000. Prepara uma outra tradução, pela mesma editora, de um livro chamado “Uma colônia no Brasil”, de Madame van Langensdonck. 

 

 

 

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