Transparências da Memória/Estórias de opressão 

Angélica Soares. Transparências da Memória/Estórias  de opressão - (Diálogos com a poesiabrasileira contemporânea de autoria feminina). Florianópolis: Ed. Mulheres, 2009.
R$ 38,00.


Prefácio

      EXÍLIOS E MÁSCARAS DA MEMÓRIA


    Um tema, freqüentemente, escolhe o seu autor mais do que é escolhido por ele. Presta-se a uma ilusão de liberdade e encobre a relação necessária e por vezes inexorável entre o autor e seu tempo. Ambos pertencem a esse tempo, suas interrogações e angústias e a obra que resulta cumpre o destino de exorcizar os fantasmas dessa época.
    O livro de Angélica Soares pertence a esse encontro entre um escritor e seu tempo, e mesmo se sua matéria é a memória, seu pertencimento é ao presente. Um presente que induz a perguntar se no que escrevem as mulheres não se encontram as pistas do que, para além da  memória como patrimônio individual, é depoimento sobre a História, que Angélica não hesita em apontar como marcada pela opressão. Não fora Angélica Soares contemporânea da ruptura de um paradigma milenar que confrontou as mulheres ao susto de se perder, de não mais reconhecer-se no que lhes ditava a cultura hegemonicamente ditada pelos homens, e de ter de chamar a si a autoria do Feminino, escapando às definições pelo avesso em que viveu aprisionado – o contrário do masculino –, introduzindo em suas vidas uma liberdade inédita e, por vezes ameaçadora.
    Esse livro se insere assim nesse destino coletivo que, ao longo dos últimos trinta anos, cumprem as mulheres, intelectuais, artistas, cientistas – decifrar o passado de uma parte da humanidade, reescrever sua história –, sem perder o vínculo com o que a memória documenta quase sempre em tom dolorido.
    Angélica Soares escolheu seguir os vestígios perceptíveis no imaginário daquelas que escreveram e, memorialistas, se escreveram.
    Mas como “pensar sobre a literatura é pensar com a literatura, incluir o pensar e o poetar sobre e com a memória”, Angélica segue o caminho assinalado pelo encontro com várias poetas de nossa literatura, dando a elas a palavra para que em seus textos ecoem “a amargurada flor da memória que ao vento fala”, que Cecília Meireles evoca.
    Nesse diálogo com a poesia brasileira contemporânea de autoria feminina Angélica penetra os territórios imprecisos da memória e da imaginação “sem margens”, porque sabe que “os fatos não se revivem, reconstroem-se, recriam-se nos descontínuos e lacunares movimentos temporais da rememoração” e que a trajetória humana é um permanente errar, em seus múltiplos sentidos, “na qual lembrar e esquecer são faces da mesma moeda”.
    Dos subterrâneos da experiência feminina, do que dela a história guarda como inconsciente reprimido, emergem os subjetos – tomando emprestado a Adélia Prado uma criação sua – “trazendo à tona fragmentos que permitem reconstituir a vida fragmentada pela cronologia”. A vida de alguém, sim, mas ainda mais a fragmentária história das mulheres, um não-objeto diluído em suposta indiferenciação na história humana.
    Angélica enfrenta assim o debate que atravessa o pensamento do fim do século XX, em que essa ocultação é tirada do senso comum em que se escondia e revelava como ideologia. Ora, a ideologia só se mantém invisível justamente enquanto se confunde com o senso comum. Desde que esse senso comum é desafiado por um pensamento que não só nega-o, mas desnuda-o como ideológico, a quebra de legitimidade que se opera é irreparável. A ideologia perde a obviedade, ela é chamada a se defender, ao se defender perde a força e transforma-se em uma opinião entre outras, revela-se como ideologia.
    Denunciando o silêncio sobre a opressão como ideologia, Angélica chama a depor a poesia que reconstrói o cotidiano das mulheres e o acompanha passo a passo em sua travessia da memória como tema da literatura escrita por mulheres poetas. Ora, para ela, “a memória coloca sempre em questão a identidade. Em última instância, a memória, é a identidade”. Assim é porque, pela memória, o autor quer reunir o que foi e o que fez, ao que faz e ao que fará e será. Assim é para a mulher irrevelada de Helena Parente Cunha, da mesma estirpe daquelas feridas por aquilo que Lucia Castelo Branco chamou de “desmemória”, “uma vez que a identidade buscada se situa no esquecimento”.
    O livro de Angélica Soares é, de certa forma, ele mesmo, inconfessa memória. Revela um acúmulo de interrogações que assombram a autora. Do exílio à máscara, são recorrentes os temas de um não-lugar que habita sem habitar a identidade feminina. A autora, espírito atento ao processo de negação dessa identidade e ao mesmo tempo de sua reconstrução, em um tempo em que as mulheres reivindicam a autoria de si, paga o preço de seus próprios sobressaltos e perplexidades e atravessa-os com a coragem de quem busca, ela mesma, sua identidade marcada e assumidamente feminina. Aquela a que, cada mulher, terá enfim o direito de imprimir seu rosto próprio. Angélica, autora e pensadora, ao mesmo tempo, da literatura e da mulher.
    Resulta um livro instigante construído em diálogo com o melhor da poesia escrita por mulheres, permeado por poemas admiráveis percorridos no fio da memória, como se fora a memória um pentimento escondido sobre o que vem resultando ser o quadro de um novo tempo. O nosso tempo, feito de desafios pessoais e aventuras coletivas, de criatividade e ousadia intelectual na afirmação de um lugar inaugural de onde falar de si e da vida vivida ou sonhada. Tempo que o livro de Angélica Soares reconhece e ajuda a construir.

 Rosiska Darcy de Oliveira





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