Úrsula

Maria Firmina dos Reis


Orelha do Livro

Zahidè Lupinacci Müzart

 

O romance Úrsula foi descoberto, em 1962, por Horácio de Almeida, em um sebo, no Rio de Janeiro. No prólogo à edição de 1975, ele salienta a ausência da escritora nos estudos críticos dedicados à literatura maranhense. O único autor a mencioná-la foi Sacramento Blake.

A questão da Abolição vai ser quase um leit-motiv da pena feminina, mas somente com este romance, teremos uma visão diferente do problema. O livro, por ter sido editado na periferia, e por ser de uma mulher e negra, lastimavelmente, não teve maior repercussão. Foi publicado sob o pseudônimo Uma Maranhense, em 1859. Publicar sob pseudônimo era quase de praxe entre as mulheres, que assim se escondiam e se resguardavam de possíveis ataques e maledicências.

O romance foi construído com a técnica de encaixes de narrativas, as personagens contando suas vidas. O tom lembra velhas narrativas de tempos medievais, cavaleiros e damas em perigo, promessas, conflitos entre amor, honra e dever. Na primeira narrativa, básica, Túlio, um jovem escravo negro, salva a vida do cavaleiro Tancredo e leva-o, ferido, até a jovem Úrsula que irá cuidar de seus ferimentos. Na segunda, o cavaleiro conta sua triste vida cheia de decepções, amores e traições. Na terceira, a mãe de Úrsula conta sua também triste vida, entrevada e pobre, abandonada pela família, em virtude de seu casamento contra os interesses da família. Mas é na quarta narrativa, a da velha africana Mãe Susana, onde encontraremos a diferença desse romance abolicionista, comparando com outros da mesma época. Mãe Susana vai contar como era sua vida na África, entre sua gente, de como se deu a prisão pelos caçadores de escravos e de como sobreviveu à terrível viagem nos porões do navio. É Mãe Susana quem vai explicar a Túlio, alforriado pelo Cavaleiro, o sentido da verdadeira liberdade, que essa não seria nunca a de um alforriado num país racista.

Ao lado do amor entre os jovens protagonistas, Úrsula e Tancredo, a trama traz, como personagens importantes, dois escravos que vão dar a nota diferente ao romance, pois, pela primeira vez o escravo negro tem voz e, pela memória, vai trazendo para o leitor uma África outra, um país de liberdade. Esse lado da narrativa é dos mais interessantes porque traz à literatura brasileira uma visão diferente do passado do negro africano, sendo, por isso, superior ao romance A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, de coloração racista, visto que o conceito de beleza do autor só pode estar na mulher branca e rosada!

O enredo é muito romântico, ligando-se ao veio que buscou inspiração num passado inexistente, medieval à moda européia. Os temas são os do amor e morte, incesto, castigo e loucura e, segundo a estudiosa Norma Telles, "permeado por elementos do gótico".

 

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